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Índia: 50 dias no purgatório

Chegamos na Índia 50 dias atrás. Eu não fazia muita questão de passar por aqui, uma vez que nunca tive interesse pelo país. Nosso primeiro contato foi desastroso e quase desistimos de ficar. Estudamos várias vezes como poderíamos encurtar nossa passagem pelo país, mas resolvemos que se tanta gente vem pra cá e sai apaixonado, precisaríamos dar um chance.

Decidimos então, quebrar nossa viagem em 03 grandes etapas. A primeira foi a fase de aclimatação, e preferimos fazer uma passagem extremamente turística pro aqui. Conhecemos o Golden Temple; grande parte do Rajastão passando por cidades importantes como Jaisalmer, Jodhpur, Chittorgarh, Pushkar, Jaipur e Agra com o famoso Taj Mahal. Foram 17 dias aproveitando a moeda super desvalorizada do país, onde gastamos a maior parte da nossa grana destinada ao país alugando um carro. Importante dizer que aqui, você aluga um carro e ganha o motorista de brinde, graças a Deus, uma vez que o trânsito indiano é pra lá de insano.

Acabando a mordomia, partimos para a segunda fase. Rumamos para Varanasi para ceder o nosso tempo aos outros fazendo trabalho voluntário com crianças necessitadas. Preciso dizer que conhecemos pouquíssimo da cidade e não fizemos algumas coisas consideradas obrigatórias, como o passeio de barco no Ganges, mas em contrapartida conhecemos muita gente local, fizemos amizade com diversos lojistas e donos de restaurantes e aproveitamos que já estávamos familiarizados com a culinária indiana e nos esbaldamos em refeições homéricas e baratas.

Saímos de Varanasi com destino certo, iniciando assim a terceira e última parte; 15 dias em um Ashram. O Ashram é composto por três principais elementos: O Guru, o Residente e os Visitantes. Todos são bem-vindos, e pede-se duas coisas em troca, (1) um valor ínfimo por diária, no nosso caso 250 rúpias por cabeça – um pouco menos de 3 dólares, e (2) que todos dediquem uma parte do seu dia ao Seva, que pode ser traduzido para língua tupiniquim como Trabalho Abnegado. Resumindo, você trabalha e não ganha nada em troca. Foram 15 dias acompanhando de perto e fazendo parte da rotina de um grupo que trabalha em conjunto procurando evoluir espiritualmente. Aconteceram diversas coisas curiosas por aqui, como por exemplo eu fazendo aulas de Yoga, a gente rezando e meditando, avistamento de golfinhos na praia e principalmente, a gente dando banho em uma elefoa adolescente de 25 anos.

Golfinho avistado da praia, em Kerala
Golfinho avistado da praia, em Kerala
Lakshmi, a elefoa, sendo banhada por um monte de turista babão
Lakshmi, a elefoa, sendo banhada por um monte de turista babão

Depois desse tempo, posso dizer que conhecemos muito bem esse país. Viajamos de trem, de carro, de avião, de rikshaw, tuk-tuk, camelo e andamos mais de 50km a pé, conhecendo todos os tipos de indianos. Eles, assim como os brasileiros, vem em todos os tipos, cores e formatos. Os honestos e os desonestos, os simpáticos e mal educados, os limpos e os sujos, os espiritualizados e os que estão se lixando. Afinal de contas, é uma nação composta de seres humanos. Algumas coisas, claro, se destacaram e merecem ser mencionadas. Os indianos tem o péssimo hábito de furar fila, e parecem não se preocupar muito com as outras pessoas ao seu redor. Você precisa mostrar que está lá, pois senão eles entram na sua frente, te ignoram, esbarram em você, e algumas vezes não te atendem nos estabelecimentos. Acreditamos que isso seja por conta do tamanho da população, que os obriga a se imporem frente aos outros, o que faz com que aos nossos olhos ocidentais, eles sejam extremamente mal educados.

Outro fator que merece ser mencionado: eles não sabem o que é timidez. Se você adicionar a isso o fato de serem extremamente curiosos, temos um resultado um tanto quanto desconcertante. Indianos te parando na rua no mínimo 30 vezes ao dia pedindo para tirar foto com você, perguntando de onde você vem, quais cidades na Índia você ja conheceu, quais vai visitar, o que está achando, quais línguas você fala… Eles podem perguntar toda a sua vida em 5 minutos se você deixar, e no final vão tentar te vender alguma coisa ou te pedir dinheiro por algo que você não precisava que ele fizesse, como te guiar num caminho que você já sabia. A única maneira de te deixarem em paz rapidamente, é você falar de forma ríspida “Tchelo-tchelo”! É mágico! Eles andam para longe no mesmo instante.

Mais uma característica fortíssima da Índia, é o caos e a sujeira. Esgoto ao céu aberto, pilhas de lixo na rua, estrume de vacas nas ruas, animais sarnentos. Li um post de um gringo falando que a Índia foi o lugar mais imundo que ele ja visitou em todo o mundo. Preciso fazer eco a suas palavras. Nunca vi tanta sujeira e falta de higiene concetrada. Demorou para nos acostumarmos e até para nos sentirmos confortáveis para comer. Ver um rato passando no restaurante enquanto você da uma colherada em seu prato é muito comum por aqui. Mas ao mesmo tempo, em meio a todo esse caos e lixo, encontra-se coisas espetaculares. Templos aos montes, fortes medievais, estátutas dos diversos deuses e afrescos que tem facilmente seis vezes a idade do Oscar Niermeyer. O histórico e antigo é uma constante na vida deles, e é tão presente e comum, que o indiano passa indiferente ao que nós, turistas, consideramos uma relíquia. O forte de Jaisalmer por exemplo, ainda é habitado por diversos indianos. Lá dentro você encontra lojas de todos os tipos de artefatos, restaurantes e guesthouses, e tudo isso faz com que seja um forte medieval mas ainda habitado e ativo! Entrar lá é como pegar uma cápsula do tempo, porém para uma época em que a construção não tem mais serventia militar.

Outra questão que não pode ser deixada de fora, é a espiritualidade. Inegavelmente, essa é a base de toda a cultura indiana. Todo cidadão tem seu Deus, seja ele o Deus Elefante, o Deus Cobra ou o Deus Macaco. Passamos inclusive pelo Deus Motocicleta no meio da estrada.

Deus Motocicleta. Uma Norton Einfield Bullet 350, a melhor moto que você pode ter na Índia
Deus Motocicleta. Uma Norton Einfield Bullet 350, a melhor moto que você pode ter na Índia

Em Varanasi, todos os dias as 17h45 acontece o Puja na beira do Rio Ganges. Presenciar todo esse ritual do começo ao fim é algo que com certeza faz a gente pensar. Tem todos os elementos que já ouvimos falar sobre os rituais de povos antigos: sacerdotes, veneração de Deuses, o uso dos elementos como fogo e ar (incenso). Todos os dias, sem falta, os indianos se acumulam na beira do Rio para prestar sua devoção ao divino. É de novo, aquela cápsula do tempo.

Puja em Varanasi
Puja em Varanasi

Resumindo, a Índia é um país que em pleno século XXI, conseguiu manter viva a sua tradição. O novo não substitui o antigo, mas sim adiciona e vive em harmonia.

Definitivamente, depois desses 50 dias, posso dizer com propriedade que a Índia é um país singular. Não houve um dia aqui em não fomos testados em algum critério. Os mais abalados foram tolerância, desapego e preconceito. Mas parto para o Sri Lanka com novas certezas e algumas antigas mais consolidadas do que nunca.

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